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Uma prece

Martha Medeiros

Senhor. Desculpe a audácia. Me disseram que a gente deve rezar apenas para agradecer, e eu sou a primeira da fila das agraciadas, só tenho obrigada a dizer, mas não estou aqui pra falar de mim, deixa eu sentar aí do seu lado e me conceda dois minutos.

Olha pra baixo. O que o senhor vê? Delicadeza sua, não é um país. É uma tentativa de ser um país. Por isso lhe peço, me escute, é uma prece, ainda que eu não seja muito boa nisso.

Pessoas querem fazer cinema e teatro e não conseguem patrocínio. Pequenas empresas pagam tantos impostos que não conseguem sobreviver e muito menos gerar emprego. O salário mínimo é tão mínimo que as pessoas não conseguem comprar comida, o que dirá livros. Não comprando, divertem-se com o que mostra a televisão, e nem se dão conta do quão vulgar é o que se mostra, a grossura está cada vez mais difundida como “espontaneidade” e o pessoal acaba se identificando. O país está de joelhos.

Mas é tudo gente boa, é preciso admitir. Excetuando-se aqueles que metem a mão no bolso alheio, o resto é do bem, só que é difícil se manter do bem quando não se estuda, quando a mãe tem que sair pra trabalhar e não tem onde deixar os filhos, quando o pai bebe pra esquecer todos os sonhos abortados e acaba descontando nos moleques da casa, batendo mesmo. Os moleques não aguentam, Senhor. A gente cruza com eles todo dia na rua, é de dar dó. Só dá raiva quando eles nos assaltam e matam, aí a gente esquece de onde eles vieram e fica muito revoltado, a gente está envelhecendo com medo, e o medo devora por dentro. Está neste pé a coisa.

Senhor.

O que eu peço é simples: que se pare de pensar só em grana e que se reavalie o conceito de luxo. Luxo é manter uma certa dignidade, não entrar em esquema, não expor a própria intimidade, ter tempo pro ócio e aproximar-se da poesia, não só a que é feita de versos impressos, mas da poesia que tem na vida, abundante. Luxo é ter amigos e não comparsas, é dormir sem dívida financeira ou existencial, luxo é poder rir, trabalhar, tomar um banho quente, comer um pão saído do forno e contar com pelo menos uma pessoa que vai amar você e ficar do seu lado apesar de todas as burradas que você faz.

Senhor.

Salve-nos dessa esquizofrenia antes que ela seja eterna, mande o pessoal desajoelhar e se erguer.


Domingo, 1 de setembro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.